FILARMÓNICA AMIZADE
PATRIMÓNIO IMORREDOURO!… HONRA E GLÓRIA DO NOSSO QUERIDO ARCOZELO E DA SUA REGIÃO
“NASCEU ASSIM”
“SOCIEDADE FILARMÓNICA AMIZADE”
No ano de 1880, aos 27 dias do mês de Setembro, foi lavrada uma escritura de constituição de “Sociedade Filarmónica”, em Arcozelo, formada de início por 18 elementos, cujos nomes aqui se registam em homenagem à sua indómita vontade, porquanto se não arrecearam de tal empreendimento, arriscando os seus haveres e obrigando-se a esforços que dificultavam a sua vida.
Quatro libras, o capital investido, naquele tempo, representava uma fortuna para quem de parcos meios dispunha ou de poucas produtivas artes vivia.
Mais se responsabilizavam ainda pelo pagamento de “doze mil réis” mensais, ao Mestre, então de nome “António Caetano de Assunção”, primeiro contratado para “reger e ensinar a filarmónica” e se comprometiam a pagar “duzentos e quarenta réis”, por semana, para as despesas ordinárias, o que representava mais que o ganho de um dia, nos seis dias de trabalho.
Consideradas estas circunstâncias, há que admirar o estoicismo de tal plêiade de homens, alguns menores, mas entusiasmados pelos Pais, que mal adivinhavam os sacrifícios que os esperava no desempenho dos seus lugares e no cumprimento destas e outras responsabilidades a que se obrigavam.
Nenhum era capitalista, nem auxílio algum de capitalistas receberam; e, tal como foi a fundação da “Sociedade”, assim tem vivido sempre contando, simplesmente, com o seu esforço.
Nunca houve sócios subscritores e raríssimos têm sido os benfeitores, mesmo que humildes.
Por isso, gozou sempre de alguma independência sem par no decorrer da sua já longa existência.
Frutificou bem o exemplo dos seus fundadores, de forte acção e boa tempera. Mencionemo-los para conhecimento de todos os conterrâneos.
Foram eles: José Mateus Júnior, Joaquim d’Almeida Cabral, Adão d’Almeida Barbas, António Bento, José Marques, Joaquim Pinto, César Mendes Cabral, Joaquim Gonçalves de Melo, José de Amaral Chaves, Emílio Lopes d’Almeida, Joaquim José Henríques do Amaral, Albino de Pinho, Gaspar Gomes, José Martinho, Diamantino d’Almeida Cabral, António Simões, António Augusto Silvestre e Constantino de Almeida.
Recordemo-los, pois, com admiração e intenso carinho.
Como segundo regente, teve a “Sociedade” um “Mestre” de apelido ou alcunha Cavacas”, mas não tardou a cair a regência nas mãos de um terceiro e, depois, nas de um quarto, afora o interregno de alguns meses em que se conheceram dois regentes!…
Assim, conta esta agremiação de actuação ininterrupta setenta e dois anos.
No meio ambiente não desmereceu do conceito em que viveram outras congéneres, mais bafejadas pela fortuna, tendo recebido, no decorrer dos tempos, provas de muita admiração de verdadeiras autoridades.
De feição recreativa-instrutiva faz, dos serviços prestados em longínquas paragens, puras viagens de turismo, conhecendo costumes, apreciando paisagens, admirando movimentos, descobrindo, enfim, pedaços encantadores do País.
Também com “ela” vai a sua “terra” e vai Gouveia, nomes de uma e outra lançados aos ventos…
Na verdade, estas “sociedades” são de uma poderosa formação educativa. Mas, ai delas! – não viveram a época dos ranchos folclóricos
Mereciam ser acarinhadas, até patrocinadas pelos poderes públicos que tão empenhados andam no devastamento moral e artístico do povo.
Tal abandono faz que estes “agrupamentos” denotem altos e baixos na sua representação, com tendências a desaparecerem!…
Raro será o que consegue arranjar sede própria; até à “rendinha” anual ainda chega, que, em alguns casos, tornou-se uma exorbitância.
Ter uma “sede”! É uma aspiração que não passa de um sonho. Lá diz o bom conselheiro “não penses, não aspires, no que não possas realizar”.
Actualmente, tem a “Sociedade Amizade” vinte e seis elementos que são os únicos sócios, acumulando a regência, a parte administrativa, norma seguida de sempre, com breves intermitências.
Para exibição e para ser utilizado nos festejos da freguesia, dispõe de um coreto majestoso no “Largo da Igreja”, prenda de filhos do Arcozelo, residente na América, ao mesmo tempo adorno da sua terra.
Com a divulgação deste “inédito”, da autoria do Professor Aurélio, elaborado em 1952, tenho como principal objectivo evocar, mais uma vez e neste data, a memória daquele que foi um dos principais “pioneiros” do progresso da nossa Terra, como Professor, con-Autarca, como “Maestro” e como Cidadão impoluto.
27 de Setembro de 2008.
Filipe Mendes